A primeira coisa que costumo dizer em minhas aulas de doutrina católica é que não é uma doutrina como as outras, embora todas tenham seu valor e méritos. O que a diferencia das demais é que ela procede não de uma reflexão ou criação imaginativa do homem, mas de uma revelação externa e superior a este.
De fato, se procurarmos bem, veremos que todo o pensamento religioso atual procede de dois blocos:
Um, espiritualista, mítico, isto é, centrado em histórias que explicam o surgimento do mundo e do homem e a percepção de algo que o transcende. Este primeiro parece refletir as culturas que foram se formando ao longo da história. Outro, moral prático, de difícil entendimento e aceitação, pelo cunho de sua exigência moral e de submissão da inteligência em relação a sua doutrina e leis. Este, por sua vez, é incompreensível do ponto de vista de uma leitura puramente humana, mas aponta para uma espécie de inteligência viva que a supera e sobrepõe; esta inteligênica pessoal que a Si mesma denominou-se "IAWEAH" - "EU SOU" aos antigos hebreus e a que hoje chamamos DEUS.
Do primeiro bloco surgiram as grandes religiões orientais, as manifestações religiosas africanas e também, embora menos comentadas, as chamadas antigas religiões pagãs ocidentais, que vão desde a mitologia greco-romana, até as chamadas nórdicas, celtas e ibéricas, das quais nossa cultura americana é filha. O que todos estes mitos e crenças têm em comum é o seu cunho ESPIRITUALISTA-POLITEÍSTA, isto é, uma tendência geral ao sentido de transcendência da vida, das coisas, das pessoas e da natureza e à criação mítica de divindades relacionadas a estes aspectos.
Do segundo bloco e na contra-mão de todos os demais surgiu a religião HEBRAICA e seus desdobramentos doutrinais que constituíram o JUDAÍSMO, o CRISTIANISMO, do qual procede o CATOLICISMO, o PROTESTANTISMO e afins, e o ISLAMISMO e afins. O intrigante deste bloco religioso é que todo ele nasce de uma doutrina e uma moral praticamente imposta e contrária às tendências naturais e de costumes de seus tempos, e propõe umas "verdades" que ultrapassam muito a natural compreensão humana, especialmente de povos culturalmente pouco desenvolvidos como foi o caso do povo hebreu - nômade e primitivo em sua organização.
Das antigas práticas religiosas e mitos pagãos procedem o que hoje conhecemos como as grandes religiões orientais, especialmente o INDUÍSMO, o BUDISMO e outras, cuja crença reencarnacionisa - de que o ser, seja ele qual for, se purifica e evolui ou ajuda outros seres por meio de sucessivas reencarnações - trás o pensamento dos seres como "corpos que contém almas"; corpos como "moradas descartáveis" das almas que a eles se adaptam qual água ao recipiente.
Da prática religiosa hebraica e seus mitos (pois as histórias das sagradas escrituras também tem este caráter mítico) surgiram o JUDAÍSMO, o ISLAMISMO e o CRISTIANISMO, fundados em estranhas revelações que apontam uma hierarquia nos seres, conforme o grau de complexidade de seus organismos e inteligência, dos quais o homem, constituído como uma unidade viva indissolúvel entre corpo (mortal )e alma (imortal), é, por sua razão e vontade live o seu ponto mais alto e também o foco para o qual converge todos os demais seres e criaturas. Apontam também estas escrituras a vida humana como sendo irrepetível em si mesma e com o sentido único de dar gloria ao Deus Único, seu Criador e alcançara a imortalidade do corpo como da alma através de um esforço nesta vida por submeter-se a este Deus pela obediência e confiança absoluta nEle pelo esforço fiel em cuprir suas leis e mandamentos.
Que o primeiro bloco religioso se perpetue e desdobre em muitos outros é coisa lógica, posto que o pensamento humano tem um caminho mais ou menos coerente neste sentido ao longo da história.
No entanto, que o segundo se desdobre em formas e conteúdos ainda mais complexos e pouco compreensíveis à luz do pensamento puramente filosófico humano e ainda por cima se perpetuem numa coerência absoluta com todo o seu pensamento que atravessa mais de 4 mil anos de história, desde os escritos mais antigos até a teologia mais recente do Magistério da Igreja Católica - isto para mim é o mistério mais incrível e incabível que já se apresentou sob a face da Terra. Algo forte aí, para mim, aponta irrevogavelmente para o mistério de um DEUS que se REVELA A SI PRÓPRIO, por pura bondade e nos pede simplesmente a nossa livre adesão, para a qual nos dá a poderosa ajuda do DOM SOBRENATURAL QUE É A FÉ.